quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Beijo

Tinha acabado de acender o lume para o jantar, quando um anjo lhe entrou pela janela. Encontrou-a de cócoras, erguendo-se lentamente, como se aqueles olhos azuis, aquelas asas branquíssimas, aquela visita celestial não fosse a coisa mais inesperada do mundo. Os olhos dela preparam-se para ouvir o que lhe vinha ser anunciado. “Avé Ma…”, e deteve-se sem conseguir concluir a frase. Era nesses olhos que viviam, lado a lado, o temor e a esperança daquela visita. Eram claros como a luz última do sol que beija a superfície verde da água, mas carregavam em si já o cinzento que anuncia a noite primeira.

“E você, como é que se chama?”, perguntou a mulher ao anjo. “Ghe…Ga...”, mais uma vez não conseguiu avançar um som que fosse à vista dos seus olhos. Recompôs-se decidido que estava, agora, a evitá-los e a olhar directamente para um ponto negro no chão. Voltou ao discurso que tinha sido preparado.

- Avé Maria, cheia de graça, trago-te uma boa notícia. Depois de fazer o homem, de lhe soprar para o nariz, de lhe falar pelos lábios, é Deus quem se faz homem, em Pessoa. Tu carregarás no teu ventre o Seu Filho.

A mulher cobriu a barriga com as mãos e baixou os olhos. Os seus olhares encontraram-se no mesmo ponto negro do pavimento. Quem desfez esse encontro foi o anjo que se aproximou lhe alcançou o queixo caído. Ergueu-o lentamente na sua direcção, deixando exposto o pescoço fino. Ela era tão completamente bela, a sua pele tão delicadamente suave, o ser perfume tão frágil e tão imensamente forte. Olharam-se lábios nos lábios, por um instante longo, enquanto o verde e o azul se perderam um no outro e deram a cor ao mar.

Beijaram-se.

Uma voz rouca como uma rocha levantou-se do céu e deixou a questão: “É com um beijo que me trais, Gabriel?”. Ele sabia bem que não.

domingo, 18 de julho de 2010

Farinha

A aldeia inteira seguia cabisbaixa numa procissão silenciosa até ao monte do Moinho. Nem sequer a condenada, que encabeçava o grupo, já resignada com a sua sorte, fazia o mínimo esgar de contestação ou revolta.
Apenas uma mulher falava mais alto e tentava impedir a marcha lenta do resto do grupo. "Mas ela não fez por mal! Não era isso que ela queria dizer! Será que não percebem!?", gritava na direcção no colectivo de juízes que, nas suas batinas, seguiam logo por trás da condenada. As outras mulheres da aldeia tentavam acalmá-la. "Vá lá, Fernanda, agora já não vale a pena. O que está dito, está dito. Não vale de nada estares agora a chover no molh... quer dizer, a sofrer por causa disto".
Chegaram finalmente ao Moinho. Era uma estrutura enorme e redonda, em que as paredes, em vez do branco cálido dos outros moinhos, era de um cinzento metálico e pesado. As pás, também elas de metal afiado, desciam numa cadência ritmada pelo uivo que faziam à medida que iam cortando a névoa às fatias.
Entraram todos para dentro do moinho, mantendo uma distância respeitável das pás. Alguém chegou a comentar que aquele aparato todo era desnecessário e que alguém ainda se podia aleijar com aquilo, comentário que mereceu um olhar de soslaio do colectivo de juízes e alguns reparos mais veementes por parte da população. "É preciso ter-se cuidado com o que se diz", disse um dos mais velhos. "A Polícia da Metáfora anda por todo o lado e eles são muito bons é a ler nas entre... eles são muito bons no que fazem, ou será que não sabe?" Sim, era claro que sabia, ou então porque é que estavam ali todos? O que se tinha limitado a fazer era apontar uma falha na segurança e tinha-o feito de forma muito clara.
O tom das reclamações de Fernanda tinha-se agora transformado em súplica. Só a condenada a pôde consolar: "Fernanda, não fiques assim. Foi um descuido da minha parte. Eu, que sou uma desbocada, tinha logo que me ir armar em esperta, já viste? Logo por causa daquele gajo".
Largou-lhe o braço e enfrentou a porta à sua frente, que dava acesso a uma câmara fechada. Depois de passar, o presidente do colectivo fechou a porta por trás de si e carregou num botão vermelho que havia ao lado. A Mó, que até aí estava parada ligou-se ao veio que estava a rodar e começou ela também no seu inexorável movimento numa lenta espiral descendente, ruminando tudo no seu caminho, câmara abaixo, precisamente no sentido dos ponteiros do relógio.

-

Junto à fonte, conversava exaltadamente com Fernanda acerca do que lhe tinha acontecido no dia anterior.
- É inacredit... Quer dizer, ainda me custa acreditar, Fernanda. Com que então ele anda-me com outra e ainda me diz que só me veio contar porque tinha medo que a Polícia da Metáfora. Acreditas nisto? Não me contou porque achava que eu devia de saber. Sabes o que é que ele me disse? "Imagina que, um dia, eu te digo que vou comprar tabaco e que vou ter com ela. E se eles descobrem? E se eles me perguntam o que é que eu queria dizer com «comprar tabaco»?".
- Ao menos, disse-te para imaginares a situação. Pelo menos lembrou-se disso.
- Eu quero lá saber, Fernanda! Olha, sabes que mais, comigo é que ninguém faz farinha!

Fernanda deixou cair o garrafão de água e pôs a mão à boca. Ainda olhou à volta para ver se alguém as tinha ouvido. Mas, na aldeia, toda a gente se calou e olhou na direcção da fonte.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Alterações

Olhou-a por cima dos óculos de ler.
- Então vamos lá ver. Ok, és a filha mais velha da minha irmã. Certo. Data de nascimento: 15 de Março de...
- 2001.
- 2001? A sério que nasceste em 2001?
- Sim.
- Ok, muito bem, o que quer dizer que nesta altura tens oito, aliás, nove, nesta altura tens nove anos. E andas na terceira classe, certo?
- Passei agora para o quarto ano.
Num formulário da empresa, que no canto superior direito trazia o acrónimo do seu nome e que tinha o título de "Briefing de Alterações" anotou calmamente o ano escolar, fazendo menção de escrever "Ano", em vez de "classe", para não se voltar a esquecer. Afinal de contas, a melhor maneira de começar era ir-se habituando ao jargão.
- E tens tido boas notas?
- Tive bons a tudo, menos a Estudo do Meio, em que só tive "Suficiente".
- Ok, muito bem. E então porque é que só tiveste "Suficiente"?, perguntou, enquanto voltava a soerguer o olhar por cima dos óculos, só para praticar.
- Porque não gosto muito, respondeu, encolhendo os ombros.
- Muito bem. Havemos então de ver se damos a volta a isso, não é? E que mais?

-

A cama de casal, branca, de lençóis brancos e edredon branco, era um reflexo do resto do quarto. A única excepção, agora, era o berço em madeira de contraplacado castanho, com um ursinho no alto da cabeceira, que estava encostado do lado esquerdo da cama. Não ouviu a porta ranger, apenas uma voz soluçante.
- Tenho saudades da minha mãe.
Falava o mais rapidamente que podia, talvez pela pressa de incluir uma frase completa entre os solavancos na garganta, talvez pela vergonha de não os conseguir impedir.
- Vem cá.
Trepou pelo final da cama, colocando-se entre o tio e o berço.
- Vá, não faças barulho que ainda o vais acordar.
Tentou acalmar os soluços interpondo-lhes um suspiro longo.
- Porque é que ela tinha que morrer?, disse, antes que uma nova enxurrada lhe voltasse a inundar a voz e a tapar os olhos.
- Ela não morreu. A minha irmã, agora, vive aqui dentro.
E apontou para o seu próprio peito. Ela firmou a face, de olhos pregados nos olhos dele.
- E, mais do que em qualquer outro sítio à face da terra, ela agora vive aqui, acrescentou, apontando para o peito dela.

Fez um sorriso ténue, enquanto fungava. Virou-se e enconchou o seu corpo no dele, antes de adormecer.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Pessoas cumprimentam-se com beijos de plástico

Pessoas cumprimentam-se com beijos de plástico. Homens abraçam crianças de plástico na estrada de plástico que dá para a escola. Jovens, com cabelos e corações de plástico, beijam jovens de plástico que, de cabeças deitadas nos seus colos, olham horizontes de plástico. Homens, jovens, distantes, morrem na televisão mortes de plástico.

A luz do mar da tarde inunda-me olhos. Fecho-os. Sobra a cor-de-laranja-rosa. Sobra um beijo tépido, em cada um deles.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tempo

A tempestade criava um tumulto à superfície das águas.

No fundo, um globo jazia, pesado como uma bola de sabão. Estava cheio de tempo. Dentro do globo, à distância, o tropel ruidoso de um cavalo agitava a terra, uma espada brandia a luz bronzeada do sol. À distância, ouvia-se o chilrear de um pássaro que afagava as faces ainda tépidas de uma manhã fresca. Ao longe, um sol punha-se, uma onda quebrava na rocha, um comboio deixava um vago rasto calmo de fumo branco, sete palmos acima dos carris. Uma onda, de novo, quebrava a rocha. No murmúrio da onda, ao longe, ouvia-se alguém sussurrar o nosso nome. De pés enterrados no mar, ouvíamos o sopro das folhas chamar o nosso nome, à distância.

A certa altura, o globo começou a subir. Lenta, como uma âncora içada à força de mãos, a bola de sabão subia vagarosa pela água.

Lá fora, a gota mais pequena da tempestade caía ao sabor do vento, esquecida da hora em que o céu a lançara.

O globo aproximava-se da tona de água. A superfície da bola estava prestes a tocar a pele da água.

Nesse preciso momento, a gota mais pequena da tempestade tocou na superfície do globo.

O globo abriu-se.

Como uma bola de sabão, o globo desfez-se no nada que existe entre o ar e a água e o tropel do cavalo calou a tempestade e a luz de bronze da espada aclarou o dia.

Depois, fez-se o silêncio que precede tudo.

O tempo, finalmente, era chegado.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cais das Colinas (dedicado a Alexanda Alpha)

O vento voava-lhe nas asas. Os turistas, distraídos pelo som arrastado do jazz, enchiam o betão que dava para o Cais das Colunas, sentados em cogumelos de plástico de onde brotavam árvores. Durante anos pilotara aquele avião. E durante os meses das férias a rotina era simples: festa no Coconuts, anúncio atrelado à cauda do aparelho, partida de Tires e paragem em todas as capelinhas: Parede, Carcavelos, Sto. Amaro de Oeiras e depois até à outra banda para fazer um bocado das praias da Costa. Um homem, de bigodes calados e mãos nas cruzes, olhava para o mar e tentava pensar em alguma coisa. Um rapaz enchia de areia molhada um balde com o fundo aos quadradinhos. De repente, seguiu os ouvidos até ao céu e viu passar a avioneta. “Co-co-nu-ts. Co-co-nu-t(e?)s”, leu de si para si. “Ó pai, o que é que são cocó-nutes?”, diparou, não evitando uma gargalhada sem o dente da frente. Não era a mais excitante das vidas, é certo, principalmente se pensarmos que tinha deixado a escola de engenharia para se dedicar aos aviões. Não esperava uma vida de Robert Redford, mas ter que aturar sempre o mesmo empresariozinho a ir de “jacto privado” até Bragança, todas as semanas. Acabadas as praias deste lado, virou o avião para atravessar a boca larga do rio. E, de todas as vezes, a mesma piada: “olha-me para aqueles desgraçados lá em baixo. De Lisboa a Bragança já não são nove horas de viagem”, dizia entre risos escarninhos para as “formiguinhas” que seguiam pelo carreiro da A1. “‘Tão mesmo velhos os Xutos, pá. Ainda me lembra quando os gajos saíram com essa música”. Lançou um olhar lânguido sobre o farol do Bugio, ali, abandonado às suas “chicotadas de luz na escuridão”, como já dizia Miguel Torga. Mandar chicotadas em plena luz do dia deve ser ainda mais triste, pensou.

Foi aí que deu uma guinada que lançou o avião numa curva apertada, como se uma das chicotadas do farol se tivesse prendido à asa. A adrenalina inundou-lhe a memória das acrobacias dos primeiros aviadores do princípio do século, a passarem com os aviões por dentro do Arco do Triunfo. Mesmo à sua frente, a ponte 25 de Abril cravou-lhe um sorriso no canto do lábio. Não foi até se virar para o Cais das Colunas que os turistas repararam no avião. “What the hell?”, blasfemou um deles, ao que alguém parece ter-lhe respondido com outra pergunta: “Coconuts?”. Todas as semanas, pensou, todas! Sem entender muito bem se uma chuva de cocos estava prestes a banhar aquela manhã do sol, os turistas levantaram-se dos seus cogumelos e começaram a recuar a passos cada vez mais rápidos. O avião baixou tanto que formou uma nuvem de espuma ao seu redor e passou a toda a velocidade, com o trem de aterragem a cortar a meta que imaginou entre os globos que encimam as Colunas. Quando olhou para a frente, teve que fazer uma pirueta para evitar bater na estátua a cavalo, que o fez também passar acima do Arco da Vitória. O toldo de plástico, esse, a esbracejar furiosamente nas costas, acabou por ir dar uma estalada na cara do Rei-menino que o fez abanar da sela. A Rua Augusta parou de espanto antes de começar a correr aos gritos como se mais alguma onda gigante se aproximasse. Olhou à volta, à procura de um lugar para estacionar, até que viu desenhar-se à sua frente uma avenida de asfalto perigosamente ladeada de obstáculos frondosos e verdes. Deu uns safanões para baixo a anunciar as intenções, e os carros, como se tivessem ouvido uma ambulância, correram a sair-lhe da frente. Quando já se estava a acabar a avenida, as rodas beijaram finalmente o chão. Carregou nos travões a fundo, usando ainda parte da rotunda para desacelerar. Em vez de parar ao pé do parque, acabou de fazer rotunda com a mão por fora do vidro acenando à multidão muda, numa última volta de consagração.

A carioca velha

De cabelo pintado de acajou vistoso, só a porção das raízes que marcavam as fronteiras da testa eram de cor perlada. A pele, branquíssima, era um napron de veias azuis e rugas engelhadíssimas, de onde sobravam os olhos pintados do mesmo tom do cabelo. A carioca velha passeava o carrinho das compras, de xadrez cor-de-vinho e preto sobre o tecido azul escuro. Pela outra mão trazia docemente uma preta de cabelo branco e maçãs do rosto salientes, que lia devagar uma listinha. Na verdade, não era muito certo quem trazia quem.

O carioca velho

De cabelo cor de prata e pele cor de bronze, o velho carioca jogava na praia. Tinha vestida uma camisa de chita branca escura que deixava transparecer a camisola interior de linho poroso e de manga à cava. As calças bege estavam arregaçadas até meio da canela. Usava óculos de lentes enormes e escurecidas e a armação grossa pisava-lhe as maçãs no rosto. De pés descalços na areia, saltitava como um morcego atrás de uma bola com penas de plástico, um cometinha a que dava palmadas de mão em concha, na direcção do companheiro.