Desligaram tudo. Disseram-me que, agora, há só uma coisa, mais importante que falar e que cantar, mais importante que correr e que dançar, que comer e que mijar, que olhar e que ouvir, só há uma coisa. Chegaram ao ponto de dizer que não precisava de pensar em respirar, que não precisava de pensar em pensar. Mandaram-me ficar ali, deitado, reduzido ao sopro de uma máquina e ao fundo de uma equação e nada mais do que isso.
Sim, algo mais que isso. Sim, um pouco mais que isso, sobrou-me uma batida. Mandaram parar tudo, minguar tudo, esquecer tudo. Mas o coração continuou, sozinho, no escuro.
Nesses dias, como três dezes anos antes, e um pouquinho mais, fui o corpo em que apenas uma coisa importava: voltar a preencher de porvir cada um dos meus pedaços. Como nos dias antes de nascer, trinta e pouco anos antes, voltei a ser apenas uma batida no escuro. No escuro. No pouco mais que escuro.
Sim, algo mais que isso. Muito pouco mais que isso, muito pouco mais que escuro, muito pouco mais que nada, pouco mais que o sopro de uma máquina, no fundo de uma equação, eu fui só aquilo, sim, uma batida. Uma batida no pouco mais que escuro. Uma batida, uma batida, uma batida,
e o sonho de um ponto de luz.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Coisas bonitas
- O som.
- O som da antena a bater no tecto.
- É o tecto de ripas e as antenas dos carros, quando batem, parece como quando uma criança brinca com um pau a arrastar pela calçada. Faz "tr-r-r-r".
- Voltei a casa...
- O meu pai! A minha mãe.
- Está tudo bem, a sério que está tudo bem.
- As pessoas todas a olhar. Está tudo bem, não é caso para estar aqui deitado, não é caso para isto tudo, garanto-vos.
- Alguém falou comigo. Ela tem os olhos claros.
- Tenho que lhe dizer tudo. Não lhe posso mentir, nem ter vergonha de nada. Vou-me confessar com ela.
- Os olhos claros.
- O meu pai, outra vez! Sim, está tudo bem! Vai tudo correr bem. Vai tudo correr bem, não vai?
- Adeus.
- A porta. A sala. A sala tem um espelho.
- Do outro lado, há pessoas diferentes. Querem-me puxar. Não querem que me mexa, não querem que faça nada.
- Caramba, eu sou capaz de me mexer sozinho!
- Mais olhos claros.
- Toda a gente aqui tem olhos claros? Não consigo ter medo no meio de tantos olhos claros.
- Esta é a que vai cantar ao meu sangue uma cantiga de embalar.
- Vá. Isso. Dorme.
- Não. Não, não quero dormir. Só mais um bocadinho. Deixem-me pensar só mais numa coisa. Só mais uma, prometo.
- E esta, só mais esta. Esta é a última, prometo. Só mais esta pergunta. A sério, depois desta eu deixo-me ir.
- Só mais uma coisa... Só mais esta coisa... Só queria saber se sempre é verdade...
Respondeu-me de olhos claros. "Sim, sim, é verdade. Vá, faça isso."
- Isso. Isso. Pensa em coisas bonitas...
- O som da antena a bater no tecto.
- É o tecto de ripas e as antenas dos carros, quando batem, parece como quando uma criança brinca com um pau a arrastar pela calçada. Faz "tr-r-r-r".
- Voltei a casa...
- O meu pai! A minha mãe.
- Está tudo bem, a sério que está tudo bem.
- As pessoas todas a olhar. Está tudo bem, não é caso para estar aqui deitado, não é caso para isto tudo, garanto-vos.
- Alguém falou comigo. Ela tem os olhos claros.
- Tenho que lhe dizer tudo. Não lhe posso mentir, nem ter vergonha de nada. Vou-me confessar com ela.
- Os olhos claros.
- O meu pai, outra vez! Sim, está tudo bem! Vai tudo correr bem. Vai tudo correr bem, não vai?
- Adeus.
- A porta. A sala. A sala tem um espelho.
- Do outro lado, há pessoas diferentes. Querem-me puxar. Não querem que me mexa, não querem que faça nada.
- Caramba, eu sou capaz de me mexer sozinho!
- Mais olhos claros.
- Toda a gente aqui tem olhos claros? Não consigo ter medo no meio de tantos olhos claros.
- Esta é a que vai cantar ao meu sangue uma cantiga de embalar.
- Vá. Isso. Dorme.
- Não. Não, não quero dormir. Só mais um bocadinho. Deixem-me pensar só mais numa coisa. Só mais uma, prometo.
- E esta, só mais esta. Esta é a última, prometo. Só mais esta pergunta. A sério, depois desta eu deixo-me ir.
- Só mais uma coisa... Só mais esta coisa... Só queria saber se sempre é verdade...
Respondeu-me de olhos claros. "Sim, sim, é verdade. Vá, faça isso."
- Isso. Isso. Pensa em coisas bonitas...
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Eco
Minutos antes, curvado para a frente. Um enfermeiro fala-me de um espasmo muscular. Dá-me um calmante.
Minutos depois, sentado no sala de espera coberta de frio. A cabeça pesada pende do pescoço, segura pelas mãos enterradas no cabelo. Sinto a dor irradiar-se pelas costas. Sinto apertar-se o nó na garganta.
Nesse mesmo instante, erguendo os olhos. Vejo a Elsa e o Tozé irromperem pela sala e pelo frio, de passo firme e veloz. Levanto a cabeça para encontrá-los. Endireito o tronco e as costas e o pescoço.
Tento disfarçar o medo, turgindo os meus lábios com um sorriso. Tento disfarçar o sorriso que deveras lhe segue
e desata agora o nó na garganta
e logo se desfaz nos meus lábios, que voltam a secar.
"Vai tudo correr bem", tento dizer-lhes, sem me conseguir ouvir.
Agora, de olhos erguidos. Só oiço o eco dos seus lábios.
Minutos depois, sentado no sala de espera coberta de frio. A cabeça pesada pende do pescoço, segura pelas mãos enterradas no cabelo. Sinto a dor irradiar-se pelas costas. Sinto apertar-se o nó na garganta.
Nesse mesmo instante, erguendo os olhos. Vejo a Elsa e o Tozé irromperem pela sala e pelo frio, de passo firme e veloz. Levanto a cabeça para encontrá-los. Endireito o tronco e as costas e o pescoço.
Tento disfarçar o medo, turgindo os meus lábios com um sorriso. Tento disfarçar o sorriso que deveras lhe segue
e desata agora o nó na garganta
e logo se desfaz nos meus lábios, que voltam a secar.
"Vai tudo correr bem", tento dizer-lhes, sem me conseguir ouvir.
Agora, de olhos erguidos. Só oiço o eco dos seus lábios.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A morte de Jan Gerrit van Wassenaer
Já passava das 23h30 da noite de 29 de Outubro de 1723, quando o filho do Barão Jan Gerrit van Wassenaer irrompeu pela casa do famoso médico e cientista Herman Boerhaave. Trazia notícias do seu pais, nada menos do que o Almirante-mor da Armada Holandesa e Prefeito da província da Renânia, pelo menos da porção que cabia, na altura, às Províncias Unidas. E a revelação era chocante: o orgulhoso almirante estava agora no seu leito de morte.
Três dias antes, o oficial da marinha neerlandesa, dado que era aos prazeres da gula e ao consumo excessivo do álcool, brindara a companhia de alguns dos seus bons amigos com um dos seus banquetes. O efeito não foi surpreendente. Aliás, já não era a primeira vez que se sentira "pesado" após uma das suas abastadas refeições e tinha-se limitado a aplicar a receita habitual: vomitar o excesso cá para fora. Nas horas que se seguiram à refeição, tomou uma porção de um emético suave, um medicamento usado na altura para provocar o vómito, a que se seguiram outras formas mais tradicionais ainda de se livrar do problema, como a ingestão de 28 gramas de azeite e 180 gramas de cerveja (já nessa altura o seu efeito "emético" era bem conhecido). Perante o insucesso do gesto, o resoluto oficial tomou a decisão de forçar a nota e tomar mais quatro taças do medicamento, uma decisão que se revelaria fatal.
Ao primeiro vómito, sentiu uma forte dor no peito, sentindo-se como se alguma coisa se tivesse partido ou rompido no interior. Não tossiu nem perdeu a clarividência com que, aliás, terá declarado imediatamente que vinha chegando a morte e se pôs a rezar. Três dias depois, o famoso médico foi encontrá-lo deitado, inclinado para a frente. Havia passado esses últimos dias contorcendo-se e queixando-se de uma forte dor no peito e nas costas.
Tal como o pragmático homem do mar, o médico da casa também se cingiu às suas técnicas mais rotineiras, fazendo sangrar o paciência e dando-lhe compressas quentes, o que não terá resolvido o problema. Foi nessa altura que a família do Barão-Almirante decidiu contactar com o emérito (que não emético) rector magnificus e vice-Chanceler da Universidade de Leiden. O prof. Boerhaave chegou tarde de mais, encontrando o paciente já morto. É incerto se as técnicas aplicadas pelo médico da casa concorram para acelerar o desfecho. O certo é que esse desfecho era, tal como o pio almirante havia prontamente declarado, inevitável.
Tirando o chapéu de médico e colocando o de estudioso, pôde o professor proceder à autópsia, técnica científica cujos métodos ele próprio ajudara a desenvolver. Descobriu, com grande interesse, que o corpo do almirante ainda continha vestígios não digeridos do pato de três dias antes, assim como a presença de gases no abdómen e de líquidos espalhados pelo tórax que tiveram o efeito de colapsar um dos pulmões. No esófago, encontrou uma ruptura, pela qual conseguiu fazer passar um dedo, experiência invulgar que permitiu que todos quantos assistiam à operação repetissem.
Tinha sido, pela primeira vez na história, diagnosticado um síndrome raro que viria a ficar conhecido com o nome do insigne professor holandês, o Síndrome de Boerhaave, consistindo na ruptura espontânea de uma parte da parede do esófago, normalmente associada ao acto de vomitar forte e repetidamente. Durante o séc. XIX apenas mais cerca de 50 casos foram diagnosticados, com todos os pacientes a sofrer o mesmo destino do Almirante van Wassenaer. Foi só na década de '40 do séc. XX que um paciente foi, pela primeira vez, resgatado a esse destino através de uma operação cirúrgica que reparou a lesão.
Ainda hoje o acontecimento é considerado raro, sendo cinco vezes mais prevalente nos homens que nas mulheres e dando-se tipicamente em doentes entre os 50 e os 70 anos. A taxa de sobrevivência depende grandemente do diagnóstico atempado, dado que uma ruptura no esófago origina, invariavelmente, uma infecção bacteriana, que tende a avançar rapidamente. Mesmo hoje em dia, um terço dos doentes ainda só recebem um diagnóstico após a morte, sendo que em 90% dos casos não tratados, a infecção leva à morte entre as primeiras 24 e 48 horas. Sem a cirurgia adequada, a taxa de sobrevivência após 72 horas é praticamente zero.
Mas os avanços no tratamento desta condição têm sido notórios. Nos nossos dias, a taxa de sobrevivência nos pacientes operados com sucesso, dentro das primeiras 24 horas, cifra-se já nuns encorajadores 75%.
Três dias antes, o oficial da marinha neerlandesa, dado que era aos prazeres da gula e ao consumo excessivo do álcool, brindara a companhia de alguns dos seus bons amigos com um dos seus banquetes. O efeito não foi surpreendente. Aliás, já não era a primeira vez que se sentira "pesado" após uma das suas abastadas refeições e tinha-se limitado a aplicar a receita habitual: vomitar o excesso cá para fora. Nas horas que se seguiram à refeição, tomou uma porção de um emético suave, um medicamento usado na altura para provocar o vómito, a que se seguiram outras formas mais tradicionais ainda de se livrar do problema, como a ingestão de 28 gramas de azeite e 180 gramas de cerveja (já nessa altura o seu efeito "emético" era bem conhecido). Perante o insucesso do gesto, o resoluto oficial tomou a decisão de forçar a nota e tomar mais quatro taças do medicamento, uma decisão que se revelaria fatal.
Ao primeiro vómito, sentiu uma forte dor no peito, sentindo-se como se alguma coisa se tivesse partido ou rompido no interior. Não tossiu nem perdeu a clarividência com que, aliás, terá declarado imediatamente que vinha chegando a morte e se pôs a rezar. Três dias depois, o famoso médico foi encontrá-lo deitado, inclinado para a frente. Havia passado esses últimos dias contorcendo-se e queixando-se de uma forte dor no peito e nas costas.
Tal como o pragmático homem do mar, o médico da casa também se cingiu às suas técnicas mais rotineiras, fazendo sangrar o paciência e dando-lhe compressas quentes, o que não terá resolvido o problema. Foi nessa altura que a família do Barão-Almirante decidiu contactar com o emérito (que não emético) rector magnificus e vice-Chanceler da Universidade de Leiden. O prof. Boerhaave chegou tarde de mais, encontrando o paciente já morto. É incerto se as técnicas aplicadas pelo médico da casa concorram para acelerar o desfecho. O certo é que esse desfecho era, tal como o pio almirante havia prontamente declarado, inevitável.
Tirando o chapéu de médico e colocando o de estudioso, pôde o professor proceder à autópsia, técnica científica cujos métodos ele próprio ajudara a desenvolver. Descobriu, com grande interesse, que o corpo do almirante ainda continha vestígios não digeridos do pato de três dias antes, assim como a presença de gases no abdómen e de líquidos espalhados pelo tórax que tiveram o efeito de colapsar um dos pulmões. No esófago, encontrou uma ruptura, pela qual conseguiu fazer passar um dedo, experiência invulgar que permitiu que todos quantos assistiam à operação repetissem.
Tinha sido, pela primeira vez na história, diagnosticado um síndrome raro que viria a ficar conhecido com o nome do insigne professor holandês, o Síndrome de Boerhaave, consistindo na ruptura espontânea de uma parte da parede do esófago, normalmente associada ao acto de vomitar forte e repetidamente. Durante o séc. XIX apenas mais cerca de 50 casos foram diagnosticados, com todos os pacientes a sofrer o mesmo destino do Almirante van Wassenaer. Foi só na década de '40 do séc. XX que um paciente foi, pela primeira vez, resgatado a esse destino através de uma operação cirúrgica que reparou a lesão.
Ainda hoje o acontecimento é considerado raro, sendo cinco vezes mais prevalente nos homens que nas mulheres e dando-se tipicamente em doentes entre os 50 e os 70 anos. A taxa de sobrevivência depende grandemente do diagnóstico atempado, dado que uma ruptura no esófago origina, invariavelmente, uma infecção bacteriana, que tende a avançar rapidamente. Mesmo hoje em dia, um terço dos doentes ainda só recebem um diagnóstico após a morte, sendo que em 90% dos casos não tratados, a infecção leva à morte entre as primeiras 24 e 48 horas. Sem a cirurgia adequada, a taxa de sobrevivência após 72 horas é praticamente zero.
Mas os avanços no tratamento desta condição têm sido notórios. Nos nossos dias, a taxa de sobrevivência nos pacientes operados com sucesso, dentro das primeiras 24 horas, cifra-se já nuns encorajadores 75%.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
A engenheira que arranja pessoas
Esta história não é sobre mim. Ou melhor, não é só sobre mim. Quando tinha dois anos, a Enfermeira Catarina já sabia o que queria fazer quando fosse grande. Quando lhe perguntavam, tinha a resposta na ponta da língua: "Quero ser uma engenheira que arranja pessoas". Esta história também não é só sobre ela. Mas é muito mais sobre ela do que é sobre mim.
Na noite de 12 de Agosto de 2010, depois de comer de gosto uma sopa de letras preparada por um muito jovem casal que havíamos conhecido nas ruas de Odeceixe, lançámo-nos, eu e uns amigos, onde se incluíam o António José Miguel e a Elsa Vila Lobos, no prato principal. Depois de algumas garfadas, já um pouco custosas, deu-se um acidente: um pedaço de carne ficou impactado, sem conseguir passar pelas paredes do esófago, até ao estômago. Dava-se, assim, início à "Operação Entremeada".
Na noite de 12 de Agosto de 2010, depois de comer de gosto uma sopa de letras preparada por um muito jovem casal que havíamos conhecido nas ruas de Odeceixe, lançámo-nos, eu e uns amigos, onde se incluíam o António José Miguel e a Elsa Vila Lobos, no prato principal. Depois de algumas garfadas, já um pouco custosas, deu-se um acidente: um pedaço de carne ficou impactado, sem conseguir passar pelas paredes do esófago, até ao estômago. Dava-se, assim, início à "Operação Entremeada".
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Lágrima
As ondas do mar elevavam-se acima da linha do horizonte, na sua tentativa de calar o murmúrio que vinha do mar. Eu ouvia-as, mergulhado no oceano, sem pé, só com a cabeça de fora. Ouvia-as e olhava para o fundo do mar que persistia para além delas, antes delas, levando o meu nome para longe.
Na face dos olhos húmidos, rolei pele abaixo, abrindo um sulco de sal e sangue e terra vermelha. Uma lágrima. E desfiz-me do sulco da cara voando milímetros de ar até cair nas ondas do oceano.
Percorri mil mundos em mil dias, deixei-me perder por todos os caminhos, vendado todos os olhos, até me esquecer de mim. Num uivo de raiva, ergui-me do mar e soprei na vela que quebrou o mastro e puxei pela onda que fez tombar o barco. Um homem caiu, sozinho, ao mar.
Depois, voei para a costa cinzenta e entrei na capela vazia. Ou quase. Diante da única vela acesa, uma mulher vestia de negro e rezava num soluço. Soberba, esquecida de mim, rodopiei num silvo que apagou a vela. A mulher chorou, sozinha, uma única lágrima. Como eu.
Lembrei-me de mim e, uma lágrima, chorei.
Saí pela fresta azul da porta e fui. Não tinha o traço dos mil dias desde que tinha saído da minha casa, deslizando pelo rosto, naquela sulco de sangue e sal e terra vermelha. Então vaguei por mundos escuros e frios, até chegar à cidade. Encontrei um palácio de gelo. Entrei por uma janela aberta, fazendo voar uma cortina de veludo vermelha.
Numa tela, um homem regressa a casa. A túnica dourada pesa-lhe tanto nos ombros que se vê ajoelhar. Não chega a ver o sorriso calmo do pai, que lhe afaga a cabeça. O sorriso não se pronuncia porque, agora, voltou a ter todo o tempo do mundo para sorrir. Não chega a ver o sorriso mas é invadido por ele, até se formar a promessa de uma lágrima nova.
Foi nesse momento que voltei a mergulhar. Enterrei-me na fibra da tela e despontei no canto do olho. Rolei pela face suada e sofrida, desfazendo-me, finalmente, num sulco de terra, na lágrima prometida.
Na face dos olhos húmidos, rolei pele abaixo, abrindo um sulco de sal e sangue e terra vermelha. Uma lágrima. E desfiz-me do sulco da cara voando milímetros de ar até cair nas ondas do oceano.
Percorri mil mundos em mil dias, deixei-me perder por todos os caminhos, vendado todos os olhos, até me esquecer de mim. Num uivo de raiva, ergui-me do mar e soprei na vela que quebrou o mastro e puxei pela onda que fez tombar o barco. Um homem caiu, sozinho, ao mar.
Depois, voei para a costa cinzenta e entrei na capela vazia. Ou quase. Diante da única vela acesa, uma mulher vestia de negro e rezava num soluço. Soberba, esquecida de mim, rodopiei num silvo que apagou a vela. A mulher chorou, sozinha, uma única lágrima. Como eu.
Lembrei-me de mim e, uma lágrima, chorei.
Saí pela fresta azul da porta e fui. Não tinha o traço dos mil dias desde que tinha saído da minha casa, deslizando pelo rosto, naquela sulco de sangue e sal e terra vermelha. Então vaguei por mundos escuros e frios, até chegar à cidade. Encontrei um palácio de gelo. Entrei por uma janela aberta, fazendo voar uma cortina de veludo vermelha.
Numa tela, um homem regressa a casa. A túnica dourada pesa-lhe tanto nos ombros que se vê ajoelhar. Não chega a ver o sorriso calmo do pai, que lhe afaga a cabeça. O sorriso não se pronuncia porque, agora, voltou a ter todo o tempo do mundo para sorrir. Não chega a ver o sorriso mas é invadido por ele, até se formar a promessa de uma lágrima nova.
Foi nesse momento que voltei a mergulhar. Enterrei-me na fibra da tela e despontei no canto do olho. Rolei pela face suada e sofrida, desfazendo-me, finalmente, num sulco de terra, na lágrima prometida.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Beijo
Tinha acabado de acender o lume para o jantar, quando um anjo lhe entrou pela janela. Encontrou-a de cócoras, erguendo-se lentamente, como se aqueles olhos azuis, aquelas asas branquíssimas, aquela visita celestial não fosse a coisa mais inesperada do mundo. Os olhos dela preparam-se para ouvir o que lhe vinha ser anunciado. “Avé Ma…”, e deteve-se sem conseguir concluir a frase. Era nesses olhos que viviam, lado a lado, o temor e a esperança daquela visita. Eram claros como a luz última do sol que beija a superfície verde da água, mas carregavam em si já o cinzento que anuncia a noite primeira.
“E você, como é que se chama?”, perguntou a mulher ao anjo. “Ghe…Ga...”, mais uma vez não conseguiu avançar um som que fosse à vista dos seus olhos. Recompôs-se decidido que estava, agora, a evitá-los e a olhar directamente para um ponto negro no chão. Voltou ao discurso que tinha sido preparado.
- Avé Maria, cheia de graça, trago-te uma boa notícia. Depois de fazer o homem, de lhe soprar para o nariz, de lhe falar pelos lábios, é Deus quem se faz homem, em Pessoa. Tu carregarás no teu ventre o Seu Filho.
A mulher cobriu a barriga com as mãos e baixou os olhos. Os seus olhares encontraram-se no mesmo ponto negro do pavimento. Quem desfez esse encontro foi o anjo que se aproximou lhe alcançou o queixo caído. Ergueu-o lentamente na sua direcção, deixando exposto o pescoço fino. Ela era tão completamente bela, a sua pele tão delicadamente suave, o ser perfume tão frágil e tão imensamente forte. Olharam-se lábios nos lábios, por um instante longo, enquanto o verde e o azul se perderam um no outro e deram a cor ao mar.
Beijaram-se.
Uma voz rouca como uma rocha levantou-se do céu e deixou a questão: “É com um beijo que me trais, Gabriel?”. Ele sabia bem que não.
“E você, como é que se chama?”, perguntou a mulher ao anjo. “Ghe…Ga...”, mais uma vez não conseguiu avançar um som que fosse à vista dos seus olhos. Recompôs-se decidido que estava, agora, a evitá-los e a olhar directamente para um ponto negro no chão. Voltou ao discurso que tinha sido preparado.
- Avé Maria, cheia de graça, trago-te uma boa notícia. Depois de fazer o homem, de lhe soprar para o nariz, de lhe falar pelos lábios, é Deus quem se faz homem, em Pessoa. Tu carregarás no teu ventre o Seu Filho.
A mulher cobriu a barriga com as mãos e baixou os olhos. Os seus olhares encontraram-se no mesmo ponto negro do pavimento. Quem desfez esse encontro foi o anjo que se aproximou lhe alcançou o queixo caído. Ergueu-o lentamente na sua direcção, deixando exposto o pescoço fino. Ela era tão completamente bela, a sua pele tão delicadamente suave, o ser perfume tão frágil e tão imensamente forte. Olharam-se lábios nos lábios, por um instante longo, enquanto o verde e o azul se perderam um no outro e deram a cor ao mar.
Beijaram-se.
Uma voz rouca como uma rocha levantou-se do céu e deixou a questão: “É com um beijo que me trais, Gabriel?”. Ele sabia bem que não.
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